as pessoas deveriam se sentir responsáveis por aquilo que fazem das suas vivências. Pelos aprendizados que desenvolve e compartilha. Se frustrar menos pelos erros - levá-los como aprendizado. Se orgulhar menos das conquistas - tomar cuidado com o ego. Não depositar suas frustrações culpando suas relações, seus pais, as outras pessoas - não assumir e se ocupar de culpa.
Porém se responsabilizar por aquilo que fazem como indivíduo. Em seu canto só. A partir do momento que a responsabilidade pode ser divida, ex. relação de pais e filhos, de colegas de trabalho, de amigos, de marido e mulher, namorados, etc... aí a responsabilidade é de via dupla né?
A culpa e a responsabilidade tem que ter em si muita subjetividade.
Acho que toda família grande (quando sai do núcleo pai, mãe e filhos e entra na relação, avós, sobrinhos, tios, primos, etc...) tem sempre o seu 'casal propaganda de margarina'. Que no fundo, no fundo... também tem suas imperfeições. E eu acho realmente um saco a gente ter que fingir que são exemplão de vida, sendo que no fundo, no fundo, todo mundo é humano e ninguém é pago pra encher a bola de ninguém né??
A vida inteira, as mulheres da minha família tiveram uma trabalheira danada para não criar indisposições entre filhos e pais. Tivemos com os homens da família problemas com jogos, drogas, violência doméstica, alcoolismo, machismo, abuso, pedofilia, adultério... e tudo isso foi muito bem acobertado ou, sendo um pouco romântica, fantasiado 'a la A Vida É Bela' para não pegarmos ranço dos homens, não odiarmos nossos pais, não nos rebelarmos e até não haver uma desconstrução do mito da família tradicional. Elas tiveram êxito nisso. Nenhum de nós odiamos nossos pais não. Mas alguns de nós levamos adiante essa desestrutura velada para os nossos relacionamentos, agora adultos. Acho que é bem claro na minha família que essa falsa família tradicional causou distorções nos relacionamentos de quem cresceu no meio da fantasia, no meio do 'passar um pano' e negar a realidade... E pra alguns de nós é bem complicado saber lidar com um relacionamento saudável já que a gente não teve de fato nenhum exemplão assim de verdade.
Eu não sei bem o porquê mas a vida inteira ouvi que minha mãe era difícil e que meu pai teve muita paciência com o gênio forte dela. Não sei bem de onde veio o gênio forte da minha mãe - a família dela é grande e por isso fica complicado a gente tentar entender os entremeios do passado. Mas a gente sempre ouviu isso: que minha mãe era difícil, que minha mãe não tinha prática alguma pra ser esposa, dona de casa e que meu pai moveu montanhas pra agradá-la mas mesmo assim ela era difícil.
Minha mãe não nasceu pra ser dona de casa e hoje eu vejo isso claramente então hoje consigo entender isso dela não atender aos requisitos para ser uma boa dona de casa - ela não entende mas realmente, tá tudo bem em ser assim.
Minha mãe nunca foi movida a luxo e vaidades mas meu pai queria ser o marido da Stephanie de Monaco e isso rendeu pra ela várias críticas e um peso chatão das cunhadas e tal por ela não se moldar a isso, não gostar de frutos do mar, não gostar de salto alto e grifes e frescuras de salão de cabeleireiro e afins... - acho que isso pesou mais do que devia sobre ela e está tudo bem em não se moldar as vaidades do senso comum.
Por outro lado, também ouvi que meu pai era difícil. O difícil que diziam não era nem 1/3 do que de fato meu pai foi: um monstro. Ouvi que meu pai bebia e ficava agressivo mas nunca fez nenhuma maldade. Depois de um tempo ouvi que meu pai bebia e que as vezes botava a gente pra fora de casa mesmo na chuva, mesmo no frio, mesmo sendo crianças de colo, mesmo sem minha mãe ter dinheiro pra gente ir pra qualquer lugar que fosse, que fosse de madrugada... ele simplesmente bebia e colocava a gente pra fora. Ano passado eu soube que meu pai e minha mãe levantavam facas um contra o outro nessas brigas e minha mãe me mostrou uma cicatriz na coxa de uma facada que levou do meu pai.
Eu tenho vagas lembranças de drogas em casa: tubos de caneta bic sem o caninho da tinta, cheios de pó branco dentro. Cinzeiros de metal queimados embaixo. Acho que lembro de cachimbos improvisados com durepoxi. Lembro de meu pai com uns incensos que depois de experimentar maconha na vida, vc começa a entender porque que algumas pessoas 'gostam de fumar com um incenso aceso'... e é claro que lembro também daquelas reuniões depois da feira - meu pai era feirante - e juntava uma japaiada na mesa da cozinha com muita, muita, muuuuita grana rolando sempre. E ficava tudo ensacado, separado, em cima da geladeira - essa grana eu nunca soube direito do que se tratava. Criança inocente achava que era grana da feira. Hoje eu sei que essa 'grana da feira' fez parte do 'A vida é bela' que pintaram pra gente.
Além das lembranças de drogas em casa, eu tenho lembranças de meu pai completamente fora de si, agressivo, violento... - mas eu cresci sabendo que meu pai era autoritário e bravo. Então era difícil, quando criança, entender a diferença entre um comportamento bravo de um pai para um pai transtornado de droga. Hoje eu tenho clara essa separação nas situações que me lembro.
Enfim, na adolescência, meu pai virou uma espécie de herói. Aquele momento em que vc descobre o rock na vida e sua mãe ouve sertanejo mas com teu pai vc fala de Deep Purple e suas coleções de diversos mitos do rock! Meu pai era sensacional!
Mas meu pai era o cara controlador, manipulador, obsessivo, psicopata que ligava do Japão e ficava 3 horas no telefone, falando comigo, minha mãe e meus irmãos, fazendo todo mundo chorar num terror psicológico frequente.
Era difícil entender... minha mãe fazia 'o Benigni', falando que ele trabalhava demais, queria muito estar com os filhos e a família e por isso ele se frustrava, ficava bravo e tal. A gente, apesar de passar por tudo isso que meu pai causava sentia pena. E assumia isso de deixar o meu pai triste por ele não participar ativamente, como queria da nossa vida. A gente acreditava que ele queria isso.
Eu sempre escutei de todo mundo que meu pai era um ótimo pai. Que meu pai deu do bom e do melhor sempre pra gente. Quando estávamos juntos, ele sempre acompanhou em consultas médicas, sempre pagou muito bem para todo o acompanhamento das gravidezes, sempre comemos bem, nos vestimos bem... - eu sempre achei que isso tinha a ver com cuidado e afeto mesmo, dele por nós. Hoje já penso que talvez tenha a ver com bancar a aparência de família margarina que ele queria ter.
Sempre ouvi que tínhamos que valorizar meu pai. E era o que eu fazia. Mas ficava confusa com isso de valorizar alguém que deixava a gente a mercê por meses sabendo que dele vinha o sustento da casa - meu pai as vezes sumia no Japão. E ele não permitia minha mãe trabalhar para que ela cuidasse muito bem da gente.
Aí eu entendo a culpa exagerada que minha mãe sente por não sermos tão perfeitos como deveríamos ser, após ela se dedicar tanto assim a gente. O erro, na cabeça dela é dela e não nosso. Ela dedicou a vida pra gente ser tipo... isso que somos hoje e não somos nada bons em simplesmente ser bem sucedido na vida.
NEM LI E PUBLIQUEI, SEI QUE TÁ INCOMPLETO MAS TÔ CANSADA DE RASCUNHOS
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