segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Despedida

Seu Paulo era assim, parecia criança. Sabe, sem maldade? Engraçado, simples, gentil...

Tive a sorte de passar o último revéillon lá na casa dele. Lembro que eu cheguei um pouco mais animada do que todo mundo estava rsrs
Levei comidinhas decoradas, comidinhas gostosas, bexigas...
Como criança, Seu Paulo mirou as bexigas e ficava pedindo pra que enchessem logo. Seu Paulo não tinha fôlego pra encher bexiga mas queria as bexigas cheias. Conforme a gente soprava ele pedia pra encher mais! Tirava sarro de Paulinho porque as dele sempre ficavam meio xôxas rsrs
Seu Paulo sempre foi muito prestativo. Neste reveillon, como não podia encher as bexigas, queria ajudar mas não sabia dar nó em bexiga aí foi caçar barbante para pendurarmos os cachos de bexigas na parede.
Uma das fotos do Reveillon q ele pediu pra tirar. =)
A gente se divertindo com as bexigas, ficando tontos de tanto encher bexiga e nem reparamos Seu Paulo todo atarefado com bexigas e barbantes. Seu Paulo nem ligou pra nossa desatenção. Estava concentrado com seu trabalho.
Quando Dona Fátima viu que o 'véio' estava sozinho cuidando das amarrações de bexigas e se desesperou - nunca tinha visto Seu Paulo fazendo dessas coisas, pensou que estava fazendo errado, fazendo bagunça e ralhou com ele.
Acabamos a encheção de bexiga e fomos amarrar o restante. Ficamos todos pasmos ao ver que os cachos mais ajeitados e bonitos eram os que Seu Paulo fez! rsrs
Ele ficou toooodo orgulhoso e foi mostrar como dava os nós nas bexigas e confesso que não aprendi não, mas do jeito que ele fez, com certeza estava certo! E foi a melhor forma de fazer!

Quando fomos comer, ele elogiou bastante as comidas e tiramos muitas fotos!
Que bom que tiramos muitas fotos!!!!
A todo momento estava Seu Paulo me chamando pra tirar foto com ele ou bater uma foto dele. Era a nossa criança no reveillon, certamente! rs

Seu Paulo não andava bem de saúde.
Na manhã seguinte, fomos almoçar novamente lá. Estávamos na casa, Dona Fátima, Leandro, Elaine, Paulinho, eu e Seu Paulo.
Vi um garoto por umas 3x o acompanhando. Menino lindo! Uns 11 anos, no máximo! Cabelo tigela loirinho, roupas claras e descalço. Lembro perfeitamente. Seguia Seu Paulo.
Aquele menino não devia estar ali. Mas estava.
Me veio uma sensação estranha! A única forma que consigo explicar: Senti que algo ruim viria mas desta coisa ruim, viria com algo de bom. E sinceramente, apesar de não gostar de falar desse jeito, me veio a morte em mente.

Comentei sobre o garoto com Paulinho, com meu ex e com outras pessoas. Com meu ex cheguei a falar dessa sensação estranha e de sentir que Seu Paulo já estava seguro e sabia, de alguma forma sabia, do que iria acontecer.

Os problemas de saúde de Seu Paulo foram se agravando. Eles se mudaram para Taubaté. As notícias que tínhamos daqui de SP eram: Seu Paulo está internado - Seu Paulo teve alta - Seu Paulo está em casa - Seu Paulo voltou ao hospital - Seu Paulo está na UTI.
Senti desespero quando Seu Paulo deu entrada na UTI. Fiquei com medo de saber realmente o que eu sabia. Não queria saber.
Assim como do acontecimento horrível com meu amigo que havia suicidado, pedi mil vezes pra Deus pra tirar isso de mim. Para não ter nunca mais dessas experiências.
A situação de Seu Paulo ia se agravando a cada notícia que eu tinha e fui tomada por um desespero, uma urgência, uma necessidade gigantesca de vê-lo! De querer ele fora de lá, querer que tudo se estabilizasse...
Mas infelizmente perdi a corrida. Estávamos combinando de vê-lo no próximo final de semana. Acertando caminhos, carro, pedágios, companhia... Mas Seu Paulo 'queimou' a largada e correu antes.

No sábado a noite, estava no ConSerto, tivemos a notícia. Seu Paulo partia.
Não sabia se corria para Taubaté, se ficava em SP para ir no dia seguinte... Meu amigo que estava comigo no ConSerto, sobrinho de Seu Paulo, iria do domingo então fomos juntos.
Não havia clima para o ConSerto mais. Nem sei se os shows realmente não estavam tão bons ou se eu não estava mais boa para os shows...

Fomos para casa. No dia seguinte, seguimos para Taubaté para vê-lo uma última vez. Não consegui. Ele não estava mais ali. Não sei explicar isso também mas não era ele ali, para mim e eu não consegui chegar mais perto para vê-lo.

É triste pensar que não vamos mais ter aquele jeito de falar quase indecifrável... Aqueles olhinhos... O sorriso de Seu Paulo. O café que mesmo a gente recusando, de repente chegava fresco, quentinho na xícara porque se Seu Paulo fazia, a gente tinha que tomar! rsrs
Ou as bolachas que ele também servia. Sempre muito, muito hospitaleiro!
Não vai ter mais Seu Paulo deitado no sofá assistindo TV.
Isso não traz nenhum conforto, não me é aceitável... ainda.

Mas não há como não me sentir privilegiada por ter convivido com Seu Paulo. E eu acredito que aquele menino que o vi, o acompanhando pela casa no primeiro dia do ano, o guiou para caminhos bons, de paz... A vida de Seu Paulo aqui, conosco estava muito sofrida! Seu Paulo descansou. Foi preciso.


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